A história da língua de sinais é marcada pela evolução das comunidades surdas, pela criação de diferentes sistemas linguísticos e por importantes mudanças na educação e na inclusão. No Brasil, essa trajetória está diretamente ligada ao desenvolvimento da Libras, que possui estrutura gramatical própria e foi reconhecida oficialmente pela legislação brasileira.
Entender essa história ajuda a compreender como as línguas de sinais se desenvolveram, por que não são universais e quais acontecimentos contribuíram para sua valorização ao longo dos anos.
Ao longo deste conteúdo, você conhecerá os principais marcos da história da língua de sinais, desde suas origens até os avanços tecnológicos e legais que influenciam a inclusão de pessoas surdas atualmente.
Como surgiram as línguas de sinais?
As línguas de sinais surgiram naturalmente a partir da necessidade de pessoas surdas estabelecerem comunicação e compartilharem informações. A formação de uma língua de sinais ocorre quando uma comunidade utiliza sinais de maneira recorrente e esses sinais passam a seguir padrões compartilhados. Com o tempo, surgem estruturas próprias para organizar frases, expressar ideias abstratas e estabelecer relações de tempo, espaço e contexto.
Esse processo explica por que uma língua de sinais não deve ser entendida apenas como um conjunto de gestos. Ela possui gramática, sintaxe e vocabulário próprios, além de recursos visuais e espaciais que fazem parte da construção do significado.
Instituições de ensino para pessoas surdas também tiveram importância histórica nesse processo, especialmente a partir dos séculos XVIII e XIX. Nesses espaços, diferentes formas de comunicação puderam ser sistematizadas e difundidas, contribuindo para a expansão das línguas de sinais.
É importante destacar que esse desenvolvimento ocorreu de maneiras diferentes em cada país. Por isso, a história das línguas de sinais não corresponde à história de uma única língua, mas a diferentes processos de formação linguística em comunidades surdas ao redor do mundo.
Quem criou a língua de sinais e como ela se estruturou?
Não é possível atribuir a criação da língua de sinais a uma única pessoa. As línguas de sinais foram desenvolvidas coletivamente pelas comunidades surdas ao longo da história. Entretanto, algumas pessoas tiveram papel importante na sistematização e no ensino dessas línguas, especialmente a partir da criação de instituições voltadas à educação de pessoas surdas.
Um dos nomes mais relevantes nesse processo foi o educador francês Charles-Michel de l’Épée. No século XVIII, ele criou uma escola para surdos em Paris e passou a utilizar sinais empregados pela comunidade surda local como base para seu método de ensino. Por isso, ficou conhecido como pai dos surdos.
Ao pensarmos na Libras, que é a Língua Brasileira de Sinais, sua base começou a se estruturar no século XIX, com a chegada ao Brasil do educador francês Ernest Huet, a convite de D. Pedro II, para fundar a primeira escola para surdos do país, então chamada de Imperial Instituto de Surdos Mudos, atualmente conhecido como Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES).
Ernest Huet era surdo?
Sim. Ernest Huet era surdo e teve um papel importante na história da educação de surdos no Brasil. Nascido na França, ele foi professor e diretor de instituições voltadas à educação de pessoas surdas antes de se estabelecer no Brasil.
Em 1857, Huet participou da criação do Imperial Instituto dos Surdos-Mudos, atual Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES), no Rio de Janeiro. Sua experiência com a educação de surdos e o contato com a língua de sinais francesa contribuíram para o desenvolvimento histórico da língua de sinais utilizada no Brasil.
A participação de Huet, porém, não significa que ele tenha “criado” a Libras. A língua brasileira de sinais se desenvolveu posteriormente a partir da interação entre diferentes influências linguísticas e, principalmente, do uso e da transformação realizados pelas comunidades surdas brasileiras.
Qual país inventou a Libras?
A Libras não foi inventada por um país específico. Como acontece com outras línguas de sinais, ela se desenvolveu gradualmente a partir da interação entre pessoas surdas e das transformações naturais de uma língua dentro de uma comunidade.
No caso brasileiro, a história da Libras está relacionada principalmente à educação de pessoas surdas no século XIX. A chegada de Ernest Huet ao Brasil e a criação do Imperial Instituto dos Surdos-Mudos, em 1857, contribuíram para esse processo. Huet trouxe influências da língua de sinais utilizada na França, que entraram em contato com os sinais já utilizados por pessoas surdas no Brasil.
A Língua de Sinais Francesa (LSF) teve influência importante na formação histórica da Libras. Isso ocorreu por meio do contato estabelecido no ambiente educacional criado por Huet no Rio de Janeiro.
Entretanto, dizer que a Libras é simplesmente uma versão brasileira da língua de sinais francesa seria incorreto. Ao longo do tempo, os sinais e as estruturas linguísticas passaram por mudanças dentro das comunidades surdas brasileiras, dando origem a uma língua própria.
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Por que a língua de sinais não é universal?
A língua de sinais não é universal porque cada comunidade surda desenvolveu suas próprias línguas ao longo da história, assim como acontece com as línguas faladas. A Libras, por exemplo, possui estruturas linguísticas próprias e não é simplesmente uma tradução visual do português.
Atualmente, existem diversas línguas de sinais utilizadas em diferentes países e comunidades. Entre elas estão a Libras, no Brasil, a American Sign Language (ASL), nos Estados Unidos, e a Língua de Sinais Francesa (LSF), na França.
O que foi o Congresso de Milão em 1880 e como ele atrasou a história da língua de sinais?
O Congresso Internacional de Educadores de Surdos, realizado em Milão, na Itália, em 1880, foi um marco controverso na história da educação de pessoas surdas. Durante o evento, ganhou força a defesa do oralismo, método que priorizava o ensino da fala e da leitura labial em detrimento do uso das línguas de sinais.
Após o Congresso de Milão, o oralismo ganhou espaço em instituições educacionais de diversos países. Em muitos locais, o uso de sinais passou a ser proibido ou desencorajado dentro das escolas.
Essa mudança afetou a transmissão formal das línguas de sinais entre gerações e modificou práticas educacionais durante décadas. Ao mesmo tempo, as comunidades surdas continuaram utilizando sinais em espaços de convivência, preservando e desenvolvendo suas línguas.
A partir do século XX, pesquisas linguísticas passaram a demonstrar que as línguas de sinais possuem estrutura gramatical própria, fortalecendo o reconhecimento de seu caráter linguístico e contribuindo para mudanças na educação de pessoas surdas.
Por isso, o Congresso de Milão é frequentemente citado na história da língua de sinais como um momento que contribuiu para o enfraquecimento institucional do seu uso na educação, embora as línguas tenham continuado vivas nas comunidades surdas.
Como começou a história da língua de sinais no Brasil e a criação da Libras?
A história da língua de sinais no Brasil ganhou um marco importante em 1857, com a criação do Imperial Instituto dos Surdos-Mudos, no Rio de Janeiro, atual Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES). A instituição foi fundada com a participação de Ernest Huet, educador surdo francês que trouxe experiências relacionadas à educação de pessoas surdas na França.
A Libras não surgiu pronta com a criação do instituto. Sua formação ocorreu gradualmente, a partir do contato entre diferentes pessoas e comunidades surdas, da transmissão de sinais entre gerações e das transformações naturais de uma língua.
A influência da Língua de Sinais Francesa foi importante nesse processo, mas a Libras desenvolveu características próprias ao longo do tempo.
Quais são as principais leis que marcam a história da língua de sinais no Brasil?
A história da Libras no Brasil também é marcada por avanços legais que ampliaram seu reconhecimento, regulamentaram seu uso e fortaleceram os direitos linguísticos das pessoas surdas. Entre os principais marcos estão:
- Lei nº 10.436/2002: reconheceu a Libras como meio legal de comunicação e expressão e definiu a língua como um sistema linguístico de natureza visual-motora, com estrutura gramatical própria;
- Decreto nº 5.626/2005: regulamentou a Lei nº 10.436/2002 e estabeleceu medidas relacionadas à formação de professores, ao ensino de Libras e à formação de tradutores e intérpretes;
- Lei nº 13.146/2015, Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência: consolidou direitos relacionados à acessibilidade e incluiu a Libras entre os meios de comunicação considerados pela legislação brasileira;
- Decreto nº 9.656/2018: alterou o Decreto nº 5.626/2005 e reforçou medidas para ampliar o atendimento às pessoas surdas ou com deficiência auditiva por meio da Libras e da tradução e interpretação entre Libras e português;
- Lei nº 14.191/2021: incluiu na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional a educação bilíngue de surdos, considerando a Libras como primeira língua e o português escrito como segunda língua nessa modalidade educacional.
Como a tecnologia está transformando a história da língua de sinais no século XXI?
A tecnologia está ampliando as possibilidades de uso e disseminação das línguas de sinais no século XXI. Recursos digitais, plataformas de comunicação, redes sociais e ferramentas de acessibilidade permitem que pessoas surdas produzam e compartilhem conteúdos em Libras, tenham maior acesso à informação e mantenham contato com outras pessoas de forma mais autônoma.
A educação online também facilita o acesso a cursos, materiais didáticos e conteúdos em língua de sinais, ampliando as oportunidades de aprendizagem. A inteligência artificial e o reconhecimento de sinais também vêm sendo utilizados em pesquisas e no desenvolvimento de soluções de tradução entre línguas de sinais e línguas faladas ou escritas.
No entanto, é importante diferenciar essas tecnologias de recursos já consolidados. Muitas soluções de reconhecimento automático e tradução de sinais ainda estão em desenvolvimento e apresentam limitações para interpretar corretamente elementos como movimentos, expressões faciais e contexto. Por isso, não devem ser apresentadas como substitutas da comunicação humana ou de intérpretes de Libras.
Na prática, a tecnologia funciona principalmente como uma ferramenta de apoio à comunicação, à educação e à acessibilidade. Quando bem aplicada, ela pode aumentar a autonomia das pessoas surdas, facilitar o acesso a serviços e informações e ampliar a presença das línguas de sinais no ambiente digital, sem substituir a interação humana e o papel das próprias comunidades surdas na evolução de suas línguas como ocorre com o uso da plataforma ICOM.
Por que a história da língua de sinais é fundamental para a inclusão nas empresas?
Conhecer a história da língua de sinais é importante para que as empresas compreendam que a Libras não é apenas um recurso de acessibilidade, mas uma língua com estrutura própria e parte da identidade e da cultura da comunidade surda. Esse entendimento ajuda a construir práticas de inclusão mais adequadas no ambiente corporativo.
Afinal, a inclusão de profissionais surdos não termina no processo seletivo. É necessário garantir condições para que essas pessoas possam participar de reuniões, treinamentos, comunicações internas e atividades cotidianas de forma acessível.
Conclusão
A história da língua de sinais mostra como as línguas utilizadas pelas comunidades surdas foram construídas, transformadas e preservadas ao longo do tempo. No Brasil, esse processo levou ao desenvolvimento e reconhecimento da Libras como uma língua própria, com estrutura gramatical e importância cultural.
Conhecer essa trajetória também ajuda a compreender os desafios históricos enfrentados pelas pessoas surdas e a importância de promover acessibilidade e inclusão. No ambiente empresarial, esse conhecimento contribui para relações profissionais mais acessíveis e para uma comunicação que respeite a diversidade linguística.
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Especialista em Acessibilidade, ICOM

