O surdo fala! E essa é uma afirmação importante para quebrar um dos mitos mais comuns sobre a surdez. Ser surdo não significa, necessariamente, ser mudo ou incapaz de se comunicar pela fala oral.
A surdez está relacionada à audição, não ao aparelho fonador, que é o conjunto de órgãos responsáveis pela produção da fala, como pulmões, laringe, língua e lábios responsável pela fala. E, por isso, existem diferentes formas de expressão e desenvolvimento da fala entre pessoas surdas.
Ao longo deste guia vamos esclarecer se quem é surdo consegue falar, se toda pessoa surda nasce sem ouvir e como um surdo aprende a falar, para quebrar mitos sobre a relação entre surdez e mudez.
Quem é surdo consegue falar?
Sim, quem é surdo consegue falar. A fala oral depende diretamente do aparelho fonador, que é um conjunto de órgãos que emitem sons. Quando a pessoa é surda não significa que exista qualquer problema com o seu aparelho fonador que impeça a fala.
Contudo, é necessário que existam condições adequadas de estímulo e acompanhamento de aprendizagem para que a pessoa consiga desenvolver a fala oral.
Neste contexto, é importante perceber que há uma diferença entre falar e emitir sons que o outro compreende. De acordo com o dicionário Michaelis falar significa: manifestar ideias ou pensamentos; relatar um fato ou história; discorrer, contar, conversar, expor.
De acordo com o significado de “falar”, uma pessoa que se expressa por meio da Língua Brasileira de Sinais (Libras) fala, afinal, é uma língua completa que a pessoa domina e usa para se expressar, conversar e expor ideias.
Outro ponto relevante é que uma pessoa surda que é estimulada com as técnicas corretas está apta a desenvolver a fala oral por meio de estratégias como leitura labial, feedback visual e treino motor da articulação. Por não ter o retorno auditivo de sua voz, é natural que essa pessoa tenha uma fala com sonoridade diferente.
É importante destacar que não são todas as pessoas surdas que estão aptas ou conseguem desenvolver a comunicação oral, o que não representa prejuízo comunicacional. Afinal, essas pessoas podem usar outros recursos para garantir a comunicação, por meio da Libras, por exemplo.
A crença de que toda pessoa surda é necessariamente muda é um tipo de preconceito que precisa ser combatido. E obviamente, a melhor estratégia nesse caso é esclarecer as dúvidas sobre o tema.
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Toda pessoa surda nasce sem ouvir?
Não necessariamente! Uma pessoa pode nascer surda ou perder a capacidade auditiva ao longo da vida por diversos fatores que são comuns em diferentes fases da vida.
Na prática, algumas pessoas já nascem surdas, condição que é chamada de surdez congênita, que pode estar relacionada a fatores genéticos, infecções durante a gestação, complicações no parto ou uso de certos medicamentos.
Nesses casos, as pessoas nunca tiveram contato natural com sons, o que influencia diretamente a forma como aprende a se comunicar ao longo de sua vida.
Por outro lado, muitas pessoas adquirem a surdez ao longo da vida, seja na infância, adolescência ou fase adulta. Infecções como meningite e otite, exposição prolongada a ruídos intensos, traumas, envelhecimento ou doenças podem causar perda auditiva parcial ou total.
Quando a perda acontece após o desenvolvimento da linguagem oral, as pessoas geralmente mantêm a capacidade de falar de forma oral normalmente.
Como um surdo aprende a falar?
Um surdo aprende a falar de diferentes formas, seja por meio da leitura labial, coordenação da fala ou percepção sonora quando há resíduo auditivo. Entenda cada contexto com mais detalhes a seguir:
Percepção sonora (quando há resíduo auditivo)
Quando existe resíduo auditivo, ou seja, alguma capacidade de perceber sons, essa percepção pode ser estimulada com o uso de aparelhos auditivos ou implante coclear.
Mesmo que os sons não sejam ouvidos de forma clara, eles ajudam o cérebro a identificar ritmo, intensidade e padrões sonoros da fala. Essa informação auditiva, aliada à terapia fonoaudiológica, contribui para o reconhecimento e a reprodução dos sons da linguagem oral.
Coordenação da fala
A fala oral envolve movimentos precisos da língua, dos lábios, da mandíbula e das cordas vocais. Pessoas surdas aprendem a falar por meio do treinamento da coordenação motora da fala, com exercícios repetitivos que ensinam como cada som é articulado.
O acompanhamento fonoaudiológico é essencial nesse processo, pois ajuda o indivíduo a compreender como posicionar os órgãos responsáveis pela fala oral e a controlar a respiração e a entonação, mesmo quando não tem o feedback auditivo completo.
Leitura labial como apoio
A leitura labial é um recurso visual importante no aprendizado da fala. Ao observar os movimentos da boca e as expressões faciais de quem fala oralmente, a pessoa surda associa esses padrões visuais aos sons e palavras.
Embora não substitua a audição, a leitura labial funciona como um apoio fundamental para a compreensão e a produção da fala oral, especialmente quando combinada com outros estímulos, como sinais visuais e o treino motor. O que reforça a importância do acompanhamento de um fonoaudiólogo durante todo o processo de aprendizado.
Por que nem todo surdo fala oralmente?
Nem todo surdo fala oralmente e isso não é necessariamente uma consequência da surdez, porque o desenvolvimento da fala oral é um resultado de múltiplos fatores: biológicos, educacionais, sociais e culturais.
Pessoas com surdez profunda, especialmente desde o nascimento, não têm acesso natural aos sons da fala, o que torna o aprendizado oral mais complexo e, em alguns casos, pouco funcional, mesmo com intervenção especializada.
Outro fator determinante é a idade em que a surdez ocorre. Também é importante considerar quando começam as intervenções, como o acompanhamento fonoaudiológico e o acesso a recursos de comunicação.
Quanto mais cedo a criança recebe estímulos adequados, como acompanhamento com fonoaudiólogo, tecnologias assistivas como aparelhos auditivos, implante coclear e ambientes linguísticos acessíveis, maiores são as chances de desenvolver a fala oral. A ausência ou o atraso em promover os estímulos pode dificultar significativamente a oralização, portanto, é necessário buscar auxílio de um fonoaudiólogo o quanto antes.
Além disso, existe a dimensão linguística e cultural. Muitas pessoas surdas têm a Língua de Sinais como primeira língua, pois ela é visual, natural e plenamente acessível. Nesse contexto, a comunicação acontece de forma eficiente e completa, sem a necessidade da comunicação oral. Para essas pessoas, não falar oralmente é uma opção legítima, alinhada aos seus valores e cultura e não representa uma limitação.
Também é importante considerar o esforço e o custo emocional envolvidos no processo de oralização. Aprender a falar sem ouvir pode exigir anos de treino intenso, e nem sempre os resultados atendem às necessidades comunicativas do indivíduo. Por isso, algumas pessoas surdas priorizam formas de comunicação que garantem maior autonomia e qualidade de vida.
Quem é mudo é surdo?
Não. Quem é mudo não é, necessariamente, surdo, e quem é surdo também não é, automaticamente, mudo. Apesar de muitas pessoas associarem essas duas condições, elas são diferentes e têm causas distintas.
A mudez está relacionada à incapacidade de produzir a fala, geralmente por alterações nos órgãos da fala (cordas vocais, língua e laringe), por condições neurológicas ou por questões motoras. Uma pessoa pode ser muda e ouvir perfeitamente, compreendendo sons e a fala de outras pessoas sem dificuldade.
Já a surdez está ligada à perda total ou parcial da audição. A maioria das pessoas surdas possui o aparelho fonador íntegro e, portanto, pode falar. Muitas não falam oralmente não por incapacidade física, mas por não terem acesso ao som e estímulos ou por utilizarem a língua de sinais como principal forma de comunicação.
O termo “surdo-mudo” é incorreto e ultrapassado, pois associa duas condições diferentes e reforça estigmas sobre a capacidade de comunicação das pessoas surdas. A cultura surda é ampla e não pode ser reduzida de forma alguma aos preconceitos linguísticos de pessoas ouvintes.
O surdo tem dificuldade de escrever porque não sabe falar?
Não, uma vez que escrita e fala são habilidades diferentes e que envolvem processos cognitivos distintos. A escrita está relacionada ao domínio de uma língua, enquanto a fala está ligada à produção oral dos sons.
Na prática o que ocorre é que muitas pessoas surdas têm como primeira língua a Língua de Sinais (como a Libras), que possui estrutura gramatical própria e é visual-espacial. Já o português escrito costuma ser aprendido como segunda língua.
Por isso, eventuais dificuldades na escrita não estão ligadas à incapacidade de falar, mas sim ao processo de aquisição de conhecimentos de uma segunda língua, semelhante ao que acontece com qualquer pessoa ouvinte que é bilíngue.
Outro ponto que justifica eventuais dificuldades de aprender português escrito é que o ensino da língua costuma ser baseado na oralidade, ou seja, sons, rimas e pronúncia. Essa abordagem pode dificultar o aprendizado para quem não tem acesso auditivo a esses elementos.
Portanto, o ensino da escrita em português precisa ser adaptado, usando metodologias visuais e bilíngues para que as pessoas surdas sejam alfabetizadas em português e tenham um bom desempenho na língua.
Como se comunicar corretamente com uma pessoa surda?
Comunicar-se corretamente com uma pessoa surda envolve respeito, atenção e adaptação e não exige conhecimentos avançados ou atitudes complexas. A postura corporal, contato visual, clareza ao falar e uso de tecnologias assistivas são aliados, aproveite algumas dicas:
1. Chame a atenção da pessoa de forma adequada
Antes de iniciar a conversa, certifique-se de que a pessoa percebe a sua presença. Você pode tocar levemente no ombro, acenar com a mão ou piscar a luz do ambiente, se necessário. Evite chamar à distância sem contato visual para não ser desrespeitoso.
2. Mantenha contato visual
O contato visual é essencial na comunicação com uma pessoa surda. Fale de frente para a pessoa, em um ambiente bem iluminado, para facilitar a leitura labial e a compreensão das expressões faciais que complementam a mensagem transmitida.
3. Fale normalmente, sem exagerar nas expressões
Se a pessoa usa leitura labial, articule bem as palavras, mas sem gritar ou exagerar nos movimentos da boca. Falar mais alto não ajuda quem é surdo e pode causar desconforto e constrangimento.
4. Use recursos visuais
Aponte, escreva, desenhe ou use o celular para digitar mensagens quando for necessário. Gestos naturais e expressões faciais também ajudam muito a manter a comunicação, contribuindo como uma entonação daquilo que está sendo dito.
5. Respeite a forma de comunicação da pessoa
Algumas pessoas surdas usam Libras, outras preferem leitura labial, escrita ou uma combinação de recursos. Perguntar com naturalidade “qual a melhor forma de se comunicar com você?” é uma atitude respeitosa.
6. Aprenda o básico de Libras
Mesmo alguns sinais simples já demonstram respeito e interesse em manter a comunicação clara para ambas as partes. Aprender não é obrigatório, mas é uma atitude que fortalece a inclusão e estreita o relacionamento.
7. Use tecnologias assistivas
Em reuniões, palestras e até no cotidiano é importante ter um apoio para transmitir as mensagens, especialmente se as informações são mais complexas. As tecnologias assistivas como a plataforma ICOM são fundamentais para promover uma comunicação clara, respeitosa e que garante a transmissão integral da mensagem para a pessoa surda.
Conclusão
Saber que o surdo fala é fundamental para quebrar mitos e preconceitos. Com informação, respeito e acessibilidade, é possível compreender melhor as experiências das pessoas surdas e construir uma sociedade mais inclusiva.
Afinal, o surdo fala seja por meio da fala oral, da língua de sinais, da escrita ou de outras formas de expressão e suas habilidades são valiosas para a sociedade.
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Especialista em Acessibilidade, ICOM
